Abri a
gaveta de camisetas. Elas estavam separadas por cores. Joguei uma a uma em cima
da cama e coloquei a gaveta de volta no lugar. Desdobrei todas e as dobrei
novamente para que coubesse tudo na caixa. Escolhi com quais iria ficar e o
resto coloquei lá. Depois abri o armário dos sapatos e par por par, aos poucos
fui colocando no lugar que eles iriam ficar até chegar ao destino.
Olhava para
a cama, para o chão... Quantas vezes não dormi ali? Um filme passava na minha
cabeça e eu já começava a sentir saudades daquele lugar. Chorei sozinha até
levantar da cama e notar que tinha muita coisa a ser feita. Puxei uma gaveta
que estava cheia de CDs do Michael Bolton, Guns’n’roses, Brian Adams, Michael Jackson...
Quantas vezes não ouvi aquelas CDs enquanto os pensamentos fluíam? Novamente coloquei
todos os CDs juntos numa pilha e num canto de uma caixa os deixei. Depois vieram
os DVDs. Os filmes que mais assisti quando eu estava sofrendo fizeram com que
eu me emocionasse e um por um arrumei na caixa. Debaixo da cama havia uma
caixinha numa espécie de baú, onde havia várias coisas dentro. Haviam textos
incompletos, mas que naquelas pouquinhas linhas eram lindos. Fotos de momentos
especiais. Um vidro de perfume que estava quase acabando. Cartas que foram
recebidas de alguém especial e cartas que foram escritas e nunca chegaram. Havia
também um violão e um teclado lá. Gritei para que alguém me trouxesse uma caixa
maior e rapidamente fui atendida, joguei tudo lá para não chorar mais. Depois peguei
plásticos bolhas e assim enrolei as coisas frágeis, como o notebook,a câmera e
o telefone e coloquei numa caixa e escrevi bem grande “frágil”. Deixei o abajur
separado. Depois abri a porta do armário
e puxei todos os livros do ensino fundamental e médio, livros de literatura e
cadernos. Separei cuidadosamente os cadernos e os livros encaixotados irão para
uma biblioteca do centro da cidade, poderá ajudar outras pessoas assim como já
me ajudou.
Numa parte
mais em cima estavam malas e mochilas. Puxei todas para baixo e saí para
perguntar se alguém iria querer ficar com aquelas coisas, ninguém quis. Então assim
deixei todas elas do lado de fora do quarto para doação.
Depois foi
a vez do mural de fotos. Parte da parede eram fotos de almoços de domingo, da família,
dos amigos, do amor, dos aniversários... Nunca pensei que fazer uma mudança
fosse tão difícil. Olhei foto por foto, meu coração foi se apertando e teve uma
hora que eu achei que ele fosse parar. Aos poucos fui sentindo saudades dos
momentos que compartilhamos. Ao ver as fotos dos almoços de domingo, fui
lembrando de como eles foram. Das viagens, lembrei dos cartões que recebi. Dos amigos,
lembrei dos poucos que conheci. E da família, lembrei do que ela era e do que
ela se tornou agora. Do amor lembrei das lágrimas e dos conselhos. Ao ver um
foto minha fazendo caras e bocas, lembrei... Da saudade.
Depois de
ter juntado elas todas numa caixinha de madeira, tirei todos os posters da
parede e guardei junto com os CDs. Despluguei o DVD e coloquei-o dentro da
caixa enrolado no plástico bolha, assim como fiz com um sonzinho e rádio-relógio.
A TV foi doada para uma família carente recentemente e assim terminei de fazer
aquele trabalho de tirar todas as coisas do lugar e guardá-las para serem
enviadas para o Sul. Pedi ajuda para descer as caixas que estavam pesadas para
a garagem até que o caminhão da mudança venha buscá-las. Eu vi alguém desmontar
a cama e os móveis, e de repente tudo estava vazio, tendo apenas as paredes, o chão
e o teto. Pedi um tempo sozinha e agarrada ao Sr. Murphy (o urso que você me
deu) eu chorei até que minha cabeça não aguentasse mais. A história acabou. Percebi
isso, acabou para sempre. Peguei minhas coisas, bati a porta do quarto com meu
coração despedaçado, mas não olhei para trás. Fui até o jardim e fiquei lá vendo
as borboletas indo e vindo. Fui para a rua e de lá olhei aquele lugar. Parte da
minha história também foi escrita ali também. Agora só restarão as lembranças e
eu farei delas um lugar seguro.
É isso mesmo... Acabou para sempre.

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