Nunca pensei que a criança que eu fui, fosse definir a adulta
que me formei. Achei por muitos anos, aliás, que tudo que me aconteceu lá atrás
foi algo resolvido e elaborado, mas de um tempo para cá tenho feito muitos questionamentos.
Eu fui uma criança feliz, não fui?
Eu fui uma criança amada, não fui?
Eu tinha muitos amigos, não tinha?
Mas mesmo assim... Ainda tenho muitas impressões dessa época,
que de certa forma me assombram até hoje. Como saber que eu tinha um problema
sério e não ser como as outras crianças. Como não ter a liberdade de brincar na
rua, porque a qualquer momento eu poderia ter uma crise e ser atropelada. Não poder
brincar na piscina, porque poderia ter uma crise e me afogar. Não poder pegar
minha irmã no colo, ter uma crise e derrubá-la. Ou ter uma crise e voltar com
os amiguinhos me chacoalhando ou cantando a música da Xuxa “No Mundo da
Imaginação”.
Eu fui uma criança feliz.
Mas não era uma criança alegre. Não sorria, aliás, era difícil
me fazer sorrir. Não era bonita e todo mundo fazia questão de dizer isso. Não era
alegre e não era bonita, e não tinha um cabelo bonito e todo mundo fazia
questão de dizer isso também. Era gorda e minha primeira memoria dentro de uma
escola foi de um amiguinho cantando “gorda, baleia, saco de areia”.
Eu fui uma criança feliz.
Mas tinha umas crises de estresse que vejo hoje que foi muito
grave não ter cuidado disso lá atrás. Eu me batia, me mordia, puxava meu cabelo
e jogava as coisas no chão. Foi assim, que eu destruí a minha Barbie favorita
no shopping, porque não conseguia vestir a camiseta dela direito. E quando me
dei conta, ela já estava sem cabeça.
Eu fui uma criança feliz.
Mas algo me diz aqui no fundinho do meu peito (e na angústia
pela qual escrevo esse texto) que alguma coisa em algum momento, não funcionou
como deveria. Às vezes sinto que fui mal compreendida. Às vezes sinto que precisei
crescer muito rápido, quando na verdade eu podia ter aproveitado para ser só
uma criança, como qualquer outra criança.
E eu não era todo mundo.
Minha mãe repetiu isso muitas vezes na minha orelha.
E sabe o que é mais triste? Ver as pessoas dizendo como sentem
saudades da infância e eu pensar, que Deus me livre voltar para aquela época.
Eu fui uma criança feliz?
Quando somos felizes, a gente não daria tudo para reviver
algo?
Será que eu fui mesmo feliz?
De repente, percebo que eu encobri muita coisa. Para ser
aceita e corresponder as expectativas no futuro. E aqui estou... me questionando
o quanto daquela Laís vive aqui, no dia a dia. Vira e mexe ela aparece e toma a
frente das situações. Surta, chora, se morde e puxa os cabelos. Quando na
verdade, não era mais para ela aparecer há um bom tempo.
Será mesmo que eu saí bem resolvida dessa infância? De repente
parece que não. E adulta que sou, não sabe em nada lidar com a criança de mim. E
é aí que percebo, o quão difícil será enfrentar os meus monstrinhos que vivem
embaixo da cama.


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