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A diferença entre amor e abuso





Eu me lembro que todas as vezes que ele tocava em mim, eu sentia como se uma onda de energia irradiasse pelo meu corpo. Era isso que me fazia ter a certeza de que com ele seria diferente.
E de fato foi.
O fato é que, no começo, tudo que ele demonstrava, eu achava que era uma forma de demonstrar amor. Ele odiava minhas roupas curtas, e brigava comigo toda vez que eu vestia aquele shortinho branco. Eu tinha certeza, que ele só brigava porque ele se preocupava comigo.
Teve um dia que eu conversava com um amigo e ele se atravessou no meio do abraço que a gente ia dar, disse que a amizade entre homem e mulher não existia, que ali existia um interesse e era de terminarmos na cama. Ele me fez parar de falar com meu amigo e depois brigamos muito. Mas eu tinha certeza que ele brigava, porque ele se preocupava.
Depois disso, eu estava de viagem marcada com uma prima, segundo ele, ela era uma vagabunda e eu poderia ser vista como uma, por andar com ela. Nessa viagem tinham muitos amigos e com certeza iriam, ela tinha algo esquematizado para mim. Ele brigou comigo, me proibiu de ir. Pegou o meu celular e excluiu os contatos dela. Depois me deu um sermão, mas eu continuava tendo a certeza de que ele brigava, porque se preocupava comigo.
Na faculdade eu tinha muitos amigos, muitos deles homossexuais. Ele chamava todos de bicha e disse que pegaria mal andar com pessoas desse tipo, eu iria ser julgada, difamada e poderia até apanhar. Confesso que as vezes íamos para o bar, tomar uma cerveja e isso o deixava enfurecido. Andar com gays e beber em botecos não era algo que uma mulher de valor e de respeito faria. Naquele dia ele não brigou, mas me fez ir embora andando e me deixou dormir sozinha. Mas eu sabia que eu tinha sido errada, ele disse todas aquelas coisas porque ele se preocupava comigo.
Um dia cheguei do trabalho muito cansada. Preparei o jantar, tomei meu banho e fui me deitar. Acordei com uma mão passando pelas minhas pernas e logo em seguida senti uma faca me apunhalando por ali. Doeu, mas eu não quis dizer nada. Ele, coitado, não conseguiu se conter. O desejo era grande demais. Era sim, ele me desejava a ponto de não conseguir me esperar acordar.
Porém, houve um dia que eu me deparei com uma situação: uma mensagem de uma outra mulher, falando que a noite passada havia sido maravilhosa. Achei uma roupa dele com uma mancha de batom. E fui confrontá-lo, isso o deixou fora de si. Eu tentei bater nele na hora da raiva, mas ele me segurou pelos braços e me empurrou contra parede, bati minha cabeça com força e ouvi meio desorientada que eu era muito ingrata. Ele tentava me proteger do mundo, mas eu era teimosa, não podia ver uma merda que já queria fazer.
Naquele dia, ele me deixou com o corpo cheio de manchas roxas.
Depois chorou e pediu perdão, disse que perdeu a razão e eu por minha vez não ajudei. Eu o xinguei de tudo que era nome e isso só fez a ira dele aumentar. Ele não conseguiu controlar seus impulsos e me bateu como se bate em um homem de verdade. Só que ele esqueceu que eu era mulher.
E somente naquele dia, com marcas roxas pelo corpo, deitada num chão frio, onde mal podia respirar eu me dei conta de que vivia um relacionamento abusivo. Sim, ele era abusivo.
Mas eu tentava achar justificativas para o que ele fazia. Eu achava que ele me amava, mas na verdade ele só me abusava e tinha a mim, aceitando de bom grado. E sabe por que eu aceitava? Porque eu o amava. Só que o que eu não sabia, é que eu amava por nós dois. Como disse, ele não me amava. Ele me abusava.
Eu comecei a pensar, a quem iria recorrer?
Ele tirou meus amigos, minha família e minha vida.
O que eu ia fazer?
Naquele dia, ele me deu banho, enquanto me ensaboava dizia para que eu nunca mais fizesse fazer aquilo, porque eu era culpada. Ele prometeu que iria mudar. Ele prometeu um mundo. Naquele dia, ele me colocou para dormir e passou pomada nos meus hematomas.
As mudanças só duraram 3 semanas.
Na 4ª semana, ele quase quebrou meu dedo por ter o colocado na cara dele no meio de uma discussão, ainda por causa da maldita mulher que permanecia mandando mensagens.
Eu não tinha amigos, não tinha família, mas ele tinha amigos, amigas, família e outra mulher.
E eu sabia.
Mas depois daquele dia, eu prometi para mim que eu ia deixar de viver essa vida.
Eu merecia amor. E de verdade!
E se não fosse ele capaz de me dar, eu mesma me daria, todos os dias.
Então, com a cara e a coragem, peguei o vestido que ele me deu, aquele que cobria o corpo todo. O cortei inteiro, deixei o decote apreciativo e um palmo acima do joelho. Passei um batom vermelho, escovei meu cabelo, fiz minhas malas e escrevi uma carta.
Pedi para que nunca mais fizesse com outras o que ele tinha feito comigo. Em letras garrafais escrevi que por ama-lo muito eu fiquei, mas por me amar ainda mais estava indo embora.
Entrei no carro e parti.
Nunca mais ouvi falar dele.
Mas confesso que nunca tinha sido tão feliz, tenho amigos novamente, tenho família e tenho a minha vida. Às vezes, penso que se as coisas tivessem sido diferentes, ele estaria comigo vivendo a parte boa da minha vida. Às vezes, tenho curiosidade de saber se algo na vida dele mudou.
Mas meu orgulho, que foi tão ferido por ele não aceita por muito tempo esses "e se...", então logo mudo de ideia e penso como tenho sorte por ter descoberto a tempo a diferença entre o amor e o abuso. Penso na infinidade de mulheres que não tem essa sorte e escrevo para elas sempre que posso: se ele te priva, se ele te xinga, se ele te bate, se ele te força... Isso é crueldade, sadismo, mas amiga... NÃO É AMOR.
Liberte-se como eu me libertei.
No começo é difícil, mas te garanto que você aprende e consegue.

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