Primeiramente gostaria de deixar bem claro que não assisti
essa série pela febre que ela está virando no mundo, e também não assisti
porque é dirigido pela Selena Gomez Diva. Assisti por extrema insistência da
minha irmã.
Hannah: a menina que se matou e deixou gravado 13 fitas, com
13 razões pela qual se matou. 13 razões que são 13 nomes.
Gostaria de compartilhar a minha experiência ao assistir
essa série.
Devo confessar que ela mexeu comigo de uma forma que eu
nunca imaginei que pudesse me tocar novamente. Me fez reviver realmente algo
que tinha ficado lá atrás no meu passado.
E além de tudo me fez pensar algumas coisas...
- O que nós fazemos com os outros?
- Por que não ouvimos o grito de socorro que não sai da boca das pessoas?
- E como nossas atitudes contribuem para a vida ou o fim da vida de alguém?
Não com orgulho ou prazer, confesso que já fui uma Hannah.
Eu já fui a garota nova do colégio que virou a carne nova do
pedaço e que pagou consequências eternas por isso. Eu sofri bullying,
diretamente e cyber na época. E eu não gostava de conversar sobre isso. Tentava
ser forte e encarar a vida, por causa dos meus amigos. Mas quem estava lá por
mim no final?
Lembrei das comunidades do Orkut, as famosas perguntas do Formspring,
das coisinhas que falavam quando eu passava e do drama todo depois. Chegou um
tempo que o meu respirar era motivo de confusão.
E em um determinado momento eu parei
de me importar com o resto e querer só acabar com aquilo.
Por isso em um dia em que eu não estava aguentando mais, pedi para conversar com uma policial da
escola, eu estava com provas nas mãos de tudo que estava acontecendo dentro
daquele lugar e fora dele também. E o retorno? Eles não poderiam fazer nada, para fazer o
Boletim de Ocorrência eu precisaria dos meus pais, mas eu poderia chamar a
pessoa para conversarmos para resolvermos também né? Foi uma das saídas.
Lembro
que cheguei a tropeçar para conversar com meus pais sobre aquilo que estava
acontecendo, porque eu queria pelo amor de Deus que tudo acabasse, aquilo
estava me destruindo. E conversamos, eu mostrei tudo para os meus pais, mas
disseram que eu teria que resolver meus problemas sozinha.
Houve o ápice do meu desespero, comecei a ir para escola com
um canivete e um soco inglês. Hoje eu sei que havia outros meios, mas aos 15
anos eu não pensava nas consequências que teria se chegasse a tal ponto. Aliás,
eu não pensava em absolutamente nada, eu só queria que acabasse de uma vez por
todas. E para minha sorte nunca fui pega. E por sorte também nunca chegaram
perto de mim em um desses momentos.
Aconteceu também o dia da louca, e este dia foi o dia que eu
decidi que queria cortar meus pulsos, mas no fundo eu estava com medo, muito
medo. Estava no quarto, em cima da minha cama com o canivete quando minha mãe
brotou (não sei de onde) e gritou pro meu pai que estava querendo me cortar com
o canivete dele. Nunca vou me esquecer da surra que levei aquele dia.
Mais uma vez as coisas poderiam ser diferentes.
Mas eu não desisti da ideia, só não sabia como fazer.
Os dias continuaram se passando e as coisas continuaram
acontecendo.
Cortar o pulso não era opção, doeria. Afogada, detestava
pensar em como a água entraria no meu nariz e como chegaria aos meus pulmões.
Sentei diversas vezes no topo do prédio que tinha acesso e pensei em pular, mas
achava melhor não. Arma de fogo, seria com certeza rápido e não daria tempo de
sentir muita coisa, mas por sorte nunca tivemos nada do gênero dentro da minha
casa. Remédios era até uma boa, mas talvez apenas tivesse uma intoxicação e
ficasse por aquilo mesmo, nada que uma lavagem estomacal não resolvesse. E
comecei a pensar um pouco mais.
Sempre tive muito medo de como acabar com a própria vida
porque sempre fui temente a Deus embora na época não seguisse nenhuma religião,
então talvez seja por isso que estou aqui hoje contando um pouco da minha
experiência. Sempre pensei demais e no depois. Não queria que fosse um motivo
de dor para minha família, para minha mãe que muito em breve perderia um irmão
esfaqueado e para minha irmã que era só uma garotinha. Mas eu queria acabar com
as minha dores também. E demorei um tempo para entender que morrer não era a
solução. E assim me matar deixou de ser um plano.
As coisas aconteceram apenas no momento errado, quando eu
era uma garota de 14 ou 15 anos, com um emocional nada saudável, nada
estruturado e muito, muito, absurdamente intensa.
Mas quantas pessoas conseguem organizar a mente perturbada?
E quantas vezes a gente tenta tampar o sol com essa peneira?
Deixa de prestar atenção no que está acontecendo em volta.
Eu não fui a única que passou por isso. Quando era mais novinha ainda e estava em outro colégio, me lembro que eu ouvi dizer que um menino de outro colégio das redondezas se jogou da sacada dele e nem preciso dizer o que aconteceu. E eu não entendia porque. Eu entendi um pouco,
um tempo depois.
Quem se mata, quer acabar com a dor, nunca com a vida. E
sempre há os sinais do pedido de socorro através de ações.
Precisamos saber interpretar.
Hoje, no último ano de psicologia depois de ter estudado
muito o desenvolvimento, compreendo com outros os olhos o que é ser
adolescente. Adolescer é adoecer um pouco também. É perder a imagem do que se
era e ser outra coisa. Muitas cobranças, muitas intrigas, em que muitas vezes
deixa de ser saudável para o desenvolvimento humano, porque se trata de alguém
doente demais para lidar com isso.
No meu caso a minha aparência, ou a minha imagem era o alvo.
Começou com brincadeiras, com risadinhas, mas depois de um tempo começou a doer
em mim. Os apelidos até hoje me causam repulsa, meu estômago até embrulha
porque me fazem lembrar daquele momento. E ninguém sabe o que eu sinto ainda
aqui, porque o tempo passou, mas as marcas ficaram. E ao assistir essa série,
parece que marcaram mais ainda, porque as lembranças ficaram ainda mais fortes
do que o que aconteceu sete anos atrás, eu me vi de novo vivendo aquilo.
O mesmo se aplica ao abuso, nunca vou me esquecer do que
senti quando vi uma pessoa me segurar de costas e com a outra mão tentar me
tocar. O ódio e o nojo que sinto quando lembro... E não eu não estava provocando e
me mostrando para ninguém quando isso aconteceu, para você machista de plantão
que com certeza vai dizer como meu ex-namorado disse que eu estava certamente
me exibindo.
E por isso digo que
precisamos falar sobre isso.
Precisamos entender o que acontece no mundo que rodeia seus
filhos, seu irmãos, seu primos, seu sobrinhos ou apenas dos filhos das suas
amigas, ou apenas seus pacientes.
Bulliyng, os assédios sexuais ou não, são coisas que sempre
existiram e infelizmente sempre vão existir, mas precisamos ver os níveis que
estão chegando e até que ponto estão prejudicando a vida de alguém. Precisamos
falar sobre isso dentro da escola, dentro da igreja ou dentro do consultório.
Precisamos falar sobre prevenção e os meios. Precisamos falar sobre as ações que
podem impactar a vida de alguém.
Eu já vivi isso na minha vida e infelizmente vivi isso com
uma adolescente dentro do consultório, a minha historia ainda teve um final
feliz, veja bem, estou aqui. Mas ela, ela infelizmente desistiu de uma vida que
poderia ser sucedida e se aliou ao mundo paralelo que oferece descanso e
sossego, a este mundo paralelo denomino drogas e infelizmente ela não quis
nossa ajuda porque estava fechada demais para isso. Mas nunca vou me esquecer
do quanto ela chorou nas sessões que fizemos e o quanto me compadeci daquilo,
porque eu vivi aquilo um dia, mas eu não podia dizer sobre como foi para mim,
afinal ali era o espaço dela.
Precisamos entender que nossa juventude está cada vez mais
doente, porque nossa sociedade está criando pessoas doentes. Precisamos conversar
sobre o bulliyng, sobre o estupro, sobre o saber ouvir, acolher e tentar ajudar
aqueles que passam por isso.
E eu acho, que todo mundo, pelo menos uma vez na vida
deveria assistir essa série, que está bombando tanto talvez porque estamos
vivendo isso no mundo de hoje, dia após dia.
Não escrevo isso pelo clichê.
Escrevo por estar tocada. Escrevo porque posso contar hoje,
tranquila e serena sobre meus pesadelos reais que existiram. Da mesma forma que
existe para outras pessoas, que talvez não saibam lidar com isso.
804 mil pessoas cometem suicídio todos os anos – taxa de
11,4 mortes para cada grupo de 100 mil habitantes. E 75% dos casos envolvem
países onde a renda é considerada baixa ou média.
Segundo a OMS o suicídio de adolescentes estão muitas vezes
associadas a experiências de vida humilhantes, como fracasso escolar ou no
trabalho e conflitos interpessoais com um parceiro romântico.
Em SP, estudos realizados apontam que falta perspectiva de
vida para muitos jovens – insegurança física, econômica, desemprego ou falta de
acesso – aliada ainda mais pela desatenção e o despreparo do sistema público de
saúde que agravam mais ainda a situação. (José Manoel Bertolote – Consulto da
OMS e autor do livro “O suicídio e sua prevenção”).
Para a Psicóloga Karen Scavacin (uma das revisoras do
documento “Preventing Suicide – A Global
Imperative” elaborado pela OMS
também) considera que há características do perfil dos jovens que se deve levar
em consideração: As crianças e jovens, tem uma impulsividade alta, e ignora
muitas vezes a irreversibilidade da morte. Também foi apontado por ela, que há
os meios de incentivo que é de fácil acesso, que vem aumentando drasticamente
nos casos de Cyberbullying (lembra que falei lá em cima?) e que é um fator
contribuinte para o aumento das taxas de suicídio em adolescentes. Além de ser
muito fácil pesquisar como cometer um suicídio em qualquer mídia social. As
pessoas não levam em consideração quando um adolescente ou uma criança diz que
pretende se matar e isso deve ser uma das coisas que mais influência.
Mais uma vez, esta mesma psicóloga (aliás só ela mesmo pra
fundamentar o que eu disse a partir do que eu vivi) diz que é comum confundir
este tipo de comportamento agressivo do adolescente com uma fase difícil,
típica mesmo da adolescência. E completa
que um adolescente às vezes tem também uma depressão não diagnosticada que vai
aparecer como uma agressividade. Não é aquela depressão que as pessoas imaginam
de ficar na cama e não fazer mais nada. O adolescente sente muita dificuldade
de pedir ajuda.
(Notícia do G1, escrito
por Carolina Dantas:
Suicídio: é preciso
falar sobre esse problema, 2016)
Pessoas, eu escrevi essa versão segunda do livro do
apocalipse para quem sabe eu mesma tomar consciência, ou conscientizar você, isso
mesmo você que está aí do outro lado, lendo esse monte de informações que eu
joguei. Não sei se você é mãe, se você é pai, tio, tia, irmão, ou amigo... Mas
eu sou, eu sou amiga, sou irmã, sou quase-psicóloga e fui vítima desse
sentimento também um dia. E que graças a Deus posso dizer que só fui vítima
deste sentimento, e não uma vítima fatal.
Então termino este, pedindo apenas
para que você pare e pense, o que você pode fazer para mudar isso algum dia?
Você acha que pode ter “matado” alguém?
Não espero respostas. Espero apenas conscientização.
Reflexão. E quem sabe mudança, mas isso só caberá a você.


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